Quartz não é relógio de quem não entende

Tem uma frase que aparece muito quando alguém começa a olhar relógio quartz com um pouco mais de atenção:

“Mas esse é quartz.”

Como se isso encerrasse a conversa.

Como se o fato de um relógio ter bateria automaticamente colocasse a peça em uma categoria inferior.

Eu entendo de onde vem esse preconceito. Durante muito tempo, o mercado colocou o relógio mecânico em um lugar quase sagrado. Automático virou sinônimo de repertório. Quartz virou sinônimo de relógio simples, barato ou de entrada.

Só que essa leitura é rasa.

Quartz não é relógio de quem não entende.

Quartz é relógio de quem entende outro critério.

E o critério aqui é precisão.

A origem do relógio quartz: inovação, não atalho

Quando a Seiko lançou o Quartz Astron 35SQ, em 1969, ela não estava tentando criar um relógio barato. Pelo contrário. O Astron foi o primeiro relógio de pulso quartz comercializado no mundo, tinha caixa em ouro 18k e custava 450.000 ienes na época. Era uma peça cara, técnica e muito avançada para o período. A própria Seiko trata o Astron como o relógio que iniciou a revolução do quartz na indústria.

Seiko Quartz Astron 35SQ de 1969 — o primeiro relógio quartz de pulso comercializado no mundo

Esse ponto muda a conversa.

O quartz não nasceu como atalho.

Nasceu como inovação.

Precisão: o que o relógio quartz entrega de verdade

A grande entrega dessa tecnologia era resolver um problema central da relojoaria: medir o tempo com mais estabilidade. Enquanto um relógio mecânico depende de peças em movimento, variações de posição, atrito, temperatura e regulagem, o quartz usa a oscilação de um cristal para manter uma frequência muito mais constante.

Na prática, isso significa uma coisa: precisão.

E precisão também é critério.

O problema é que o quartz deu certo demais. Ficou mais acessível, ganhou escala, entrou na vida de milhões de pessoas e, justamente por isso, começou a ser tratado por muita gente como algo menor.

Mas popularidade não é ausência de valor.

Às vezes, popularidade é sinal de que uma tecnologia resolveu muito bem um problema real.

A Casio é um bom exemplo disso. No ano fiscal encerrado em março de 2026, a empresa reportou ¥184,9 bilhões em vendas no segmento de relógios. O crescimento veio principalmente da força de duas frentes: G-SHOCK e CASIO WATCH, com vendas consistentes em mercados como América do Norte, Índia e países da ASEAN.

Isso não acontece porque o mundo inteiro “não entende de relógio”.

Acontece porque existe uma entrega clara: precisão, resistência, preço coerente, desenho reconhecível, facilidade de uso e confiança.

Um Casio digital não tenta ser um dress watch suíço.

Um G-SHOCK não tenta parecer uma peça de alta relojoaria tradicional.

Eles sabem exatamente o que são.

E, para mim, isso também é valor.

O preconceito com relógio quartz: movimento não define valor

O erro está em usar o tipo de movimento como atalho para julgar o relógio inteiro.

“É automático, então é melhor.”

“É quartz, então é inferior.”

Esse tipo de frase parece conhecimento, mas muitas vezes é só repetição.

Um automático pode ser mal acabado, mal dimensionado, sem personalidade e totalmente incoerente com a rotina da pessoa.

E um quartz pode ser preciso, confiável, bem desenhado e muito mais adequado para o uso real.

A pergunta certa não é só:

“É quartz ou automático?”

A pergunta certa é:

“Qual é o papel desse relógio?”

Se você quer ritual, construção mecânica, tradição e uma relação mais emocional com o objeto, talvez um automático faça mais sentido — e tem um texto específico sobre isso aqui no site.

Se você quer precisão, praticidade, baixa manutenção e confiabilidade no dia a dia, o quartz pode ser a escolha mais inteligente.

E não tem nada de menor nisso.

Eu gosto de relógio mecânico. Gosto da engenharia, da construção, da sensação do objeto funcionando no pulso. Mas gostar disso não me obriga a diminuir o quartz.

Na verdade, quanto mais você entende de relógio, menos precisa defender uma tecnologia atacando a outra.

Relógio quartz como escolha coerente, não inferior

O Seiko Astron mostra que o quartz nasceu de uma busca real por evolução técnica.

A Casio mostra que escala, consistência e clareza de proposta também constroem valor dentro da relojoaria.

São lugares diferentes do mercado, mas os dois ajudam a desmontar o mesmo preconceito.

Quartz não é falta de repertório.

Falta de repertório é achar que só existe um tipo de relógio válido.

No fim, a boa escolha não começa no movimento.

Começa na coerência.

Coerência com o uso.

Com a proposta.

Com a marca.

Com o que aquela peça entrega.

Com o motivo pelo qual você decidiu colocar aquilo no pulso.

Relógio mecânico e relógio quartz não precisam ocupar o mesmo lugar.

O automático conversa muito com objeto, ritual e engenharia tradicional.

O quartz conversa com precisão, estabilidade e eficiência.

Os dois podem ser bons.

Os dois podem ser ruins.

Depende de quem fez, como fez, por que fez e para quem fez.

Por isso, quando alguém descarta um relógio só porque ele é quartz, talvez o problema não esteja no relógio. Está no critério.

E, às vezes, a escolha mais inteligente não é a mais complexa. É a mais precisa.

Thales Oliveira é CMO da Relojoaria Impala e da Herit Watches. Neste espaço, compartilha leituras sobre relojoaria, curadoria e mercado para quem acredita que escolher melhor começa por entender melhor.

THALES OLIVEIRA

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