Automático não é melhor. É diferente

Muita gente entra no mundo dos relógios achando que o automático é o próximo passo natural. Primeiro compra um quartz. Depois “evolui” para um automático.

Eu não penso assim.

Relógio automático não é melhor. É diferente. E essa diferença importa porque muda a forma como você escolhe.

Um relógio automático funciona a partir do movimento do pulso. O rotor gira, carrega a corda e mantém o mecanismo funcionando. É uma solução mecânica bonita, engenhosa e cheia de história. Mas ele não nasceu para ser “mais preciso” do que o quartz. Ele nasceu para resolver outro problema: reduzir a necessidade de dar corda manualmente e manter o relógio funcionando com mais praticidade.

Um dado histórico ajuda a entender isso: a Fortis considera o Harwood, produzido em série em 1926, como o primeiro relógio de pulso automático produzido industrialmente. Ou seja, a ideia original era tornar o relógio mecânico mais prático no uso diário, não criar um símbolo de superioridade para colecionador moderno.

Isso muda a conversa.

O automático não é melhor porque é automático. Ele é interessante porque cria outra relação com o objeto. Você sabe que existe um mecanismo ali dentro. Tem engrenagem, mola, rotor, ajuste, montagem, tolerância. Tem um lado quase vivo.

Ele não é o mais prático, não é o mais preciso e não é necessariamente o mais fácil de manter. Mas tem presença. E, para muita gente, isso importa.

O problema é quando o automático vira uma palavra mágica. A pessoa não sabe qual calibre está usando, não entende reserva de marcha, não pensa em manutenção, não observa espessura, acabamento, proporção ou construção. Mas fala: “é automático”, como se isso resolvesse tudo.

Não resolve.

Um automático ruim continua sendo um relógio ruim. E um quartz bem feito pode ser uma escolha muito mais inteligente, dependendo do uso.

Para mim, o ponto não é defender um contra o outro. É entender a proposta. Esse relógio é para uso diário? É uma peça mais clássica? É um relógio ferramenta? É uma compra emocional? É algo para coleção? Precisa ser prático, preciso e resistente?

Dependendo da resposta, o movimento muda. Às vezes o automático faz todo sentido. Às vezes o quartz é mais honesto. Às vezes esse nem é o ponto principal.

O mercado gosta de atalhos: “compre automático”, “compre suíço”, “compre marca famosa”, “compre o que valoriza”. Mas atalho demais empobrece a escolha.

Um relógio bom é aquele em que tudo conversa: movimento, caixa, mostrador, pulseira, acabamento, preço, história, manutenção e uso.

Eu gosto muito de relógio automático. Mas gosto mais ainda de escolha bem feita.

No fim, a pergunta não é: “esse relógio é automático?”

A pergunta melhor é: “esse relógio faz sentido pelo que ele pretende ser?”

Quando você começa por aí, a escolha muda.

Thales Oliveira é CMO da Relojoaria Impala e da Herit Watches. Neste espaço, compartilha leituras sobre relojoaria, curadoria e mercado para quem acredita que escolher melhor começa por entender melhor.

THALES OLIVEIRA

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